A pesquisa CNT/MDA divulgada na manhã desta segunda-feira (14) voltou a mostrar um quadro de indefinição na corrida presidencial, com uma explosão de votos brancos, nulos e indecisos manifestando o desconforto do eleitor com os nomes postos. O cenário indica que a dispersão da incerteza na disputa mais aberta dos últimos anos deverá ocorrer apenas durante a campanha, quando o evento receberá maior atenção da sociedade e os candidatos terão maior exposição.

Enquanto a largada não é oficialmente dada, o destaque ficará com as negociações nos bastidores, com os candidatos buscando fechar as melhores alianças para a corrida.

Eis algumas interpretações possíveis do levantamento:

1. O copo de Bolsonaro

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) manteve a liderança da disputa e um elevado índice de intenções de voto na pesquisa espontânea: 12,4%, atrás apenas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 18,6%. É o copo meio cheio. Por outro lado, o parlamentar voltou a apresentar variação negativa nos cenários estimulados, o que pode indicar que o teto foi atingido e será difícil superá-lo, durante o processo eleitoral, com poucos recursos e tempo de televisão. É o copo meio vazio. O pré-candidato pelo PSL conquista uma faixa de eleitores indignados com o establishment político, mas isso será suficiente para levá-lo ao segundo turno?

2. Pelotão de candidatos

Atrás de Lula, que, ao que tudo indica, deverá ser barrado pela Lei da Ficha Limpa, e de Bolsonaro, mais consolidado em uma faixa de eleitores, aparece uma série de candidaturas com baixa pontuação nas espontâneas, mas que buscam um espaço nos cenários estimulados. Neste pelotão, destacam-se no momento os nomes da ex-senadora Marina Silva (Rede), com mais liberdade para nadar agora com a ausência confirmada do ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Joaquim Barbosa; o ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), que enfrenta grandes dificuldades em crescer; e o ex-governador cearense Ciro Gomes (PDT), que apresenta potencial eleitoral interessante, sobretudo com as ausências de Lula e Barbosa.

3. Problemas para Alckmin

Além de não crescer, o tucano vive um drama ainda maior ao ver seu nome cair nos cenários espontâneo e estimulados da pesquisa. Alckmin também perde nas situações de segundo turno contra Bolsonaro e Marina, além de aparecer tecnicamente empatado com Ciro. No quadro de rejeição, 55,9% dos entrevistados responderam que não votariam no ex-governador “de jeito nenhum”, ao passo que 30,3% disseram que poderiam votar nele. Em março, esses indicadores marcavam, respectivamente, 50,7% e 34,5%.

“A rejeição ao PSDB é muito forte. Ela não tem o potencial de fazer barulho como o antipetismo, mas é forte. Também houve uma série de eventos contrários que pesaram sobre as intenções de voto de Alckmin”, observou o analista político Carlos Eduardo Borenstein, da consultoria Arko Advice. O especialista chama atenção para notícias como o recebimento da denúncia contra o senador Aécio Neves (PSDB-MG) pela Primeira Turma do STF, a condenação do ex-deputado federal Eduardo Azeredo pelo TJ-MG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais) e as dificuldades de o partido em oferecer respostas. Além disso, o próprio Alckmin enfrenta processos na Justiça.

Alckmin é hoje o nome mais competitivo da centro-direita segundo as pesquisas, mas larga com índice muito baixo para um tucano que ocupa tal posto. Ele aparece em condição de empate técnico com o dissidente Álvaro Dias (PODE), em função do bom desempenho do senador na região Sul, roubando votos importantes do tucano. Embora tenha sido especulada, uma costura entre Alckmin e Dias é considerada muito pouco provável neste momento, em função do interesse do senador em viabilizar um projeto eleitoral próprio e os incentivos à sua candidatura (não necessita renovar o mandato nesta eleição e seu partido busca ampliação de bancada no Legislativo). Alckmin também perde votos que em outras eleições foram tucanos para Bolsonaro. Até mesmo Joaquim Barbosa rouba apoio do ex-governador nos centros urbanos. Sendo assim, há limitações relevantes ao crescimento de Alckmin na disputa presidencial.

4. Rejeição sufocante

Alckmin não é o único candidato que enfrenta forte rejeição dos eleitores. Nenhum nome avaliado pela pesquisa CNT/MDA apresenta menos de 45% de “não voto”. O recordista neste quesito é o presidente Michel Temer, com 87,8% dos entrevistados dizendo que não votariam nele “de jeito nenhum”. Entre os candidatos com maiores percentuais de respostas “único em que votaria” ou “candidato em que poderia votar”, Marina Silva soma 37,6%, contra 34,6% de Ciro Gomes e 31,9% de Alckmin. Já Lula soma 50,6% e Bolsonaro, 35,2%.

5. Insatisfação e incerteza

Brancos, nulos e indecisos somam entre 42,2% e 45,7% das intenções de voto nos cenários estimulados desconsiderando a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É um ambiente de grande dificuldade para o establishment político, tendo em vista o desejo por renovação. Mas, além disso, a elevada taxa dos “não voto” reforçam um quadro em que o eleitor ainda não está preocupado com a disputa de outubro. “Como a campanha vai ser mais curta, o eleitor só vai olhar [para política] depois da Copa. O cenário de imprevisibilidade tende a continuar. O parâmetro de eleições anteriores, que o eleitor define o voto nos últimos dias, deve se manter. Tirando Bolsonaro, que tem um público de fiéis e seguidores, de resto está todo mundo mais ou menos com o mesmo tamanho”, explicou o especialista da Arko Advice.

“Na parte eleitoral, não houve cenário passível de comparação direta, apesar do instituto colocar em uma mesma tabela um cenário com 14 candidatos em maio contra um cenário com 9 candidatos em março. Ainda assim, na comparação dos cenário sem Lula , se destaca a soma de branco/nulo/indecisos subindo de 39% para 46% (+7pp) entre as duas pesquisas. O número é muito acima das últimas pesquisas públicas de outros institutos”, observou a equipe de análise política da XP Investimentos.

Para eles, chama atenção o ambiente de fata de “viabilidade completa” de alternativas de centro-direita, o que força os candidatos a falarem na construção de um projeto comum, mas nunca apontem para um nome. De todo modo, eles ponderam: “Outra vez gostaríamos de chamar a atenção para que o cenário não é de ainda de alto interesse por política e eleições, e as pesquisas são rigorosamente a foto deste momento. Uma foto bem feia, diga-se a bem da verdade”.

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